O arcebispo de Bolonha apresenta os discursos do Papa Francisco aos movimentos populares

O arcebispo de Bolonha apresenta os discursos do Papa Francisco aos movimentos populares 2018-10-30T13:14:27+00:00

Na 2ª f., dia 16 de abril de 2018, caiu em Bolonha um muro histórico, aquele que separava a Igreja Católica dos centros sociais. O arcebispo D. Matteo Zuppi, a convite dos centros sociais Tpo e Làbas[1], foi à sede do Tpo para falar dos discursos do Papa Francisco aos movimentos populares, publicados pela editora Ponte alle Grazie e dados à estampa como complemento a il Manifesto (quotidiano comunista). Juntamente com Zuppi intervieram Alessandro Santagata, organizador do livro, e Luciana Castellina, histórica fundadora do Manifesto. O encontro inseriu-se assim no percurso iniciado pelo Papa Francisco com os movimentos populares, que viu, assinalando um passo histórico, os movimentos populares a encontrarem-se com o Romano Pontífice, duas vezes no Vaticano e uma na Bolívia.

Os encontros do Papa Francisco com os movimentos populares tinham despertado a curiosidade do Tpo e do Làbas, pelo que pensaram trocar pontos de vista acerca deles com Zuppi. Nos três discursos proferidos nessas ocasiões, o Papa Francisco tinha de facto traçado um caminho para transformar esta sociedade, dominada pelo sistema do dinheiro, e edificar a partir da base uma sociedade mais humana, justa e fraterna.

Em Bolonha, começou-se a concretizar aquele caminho, de acordo com o auspício expresso pelo Papa Francisco: “Soube também, pelo Cardeal Turkson, que são muitos na Igreja aqueles que se sentem mais próximos dos movimentos populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vós, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada diocese, em cada comissão Justiça e Paz, uma colaboração real, permanente e comprometida com os movimentos populares. Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais, a aprofundar este encontro”[2].

Durante o encontro ao Tpo não se esconderam as diferenças, mesmo as mais profundas e talvez intransponíveis, que existem entre estes mundos, mas disse-se claramente que em relação a muitos temas é possível, e neste momento histórico é imperioso, caminhar juntos. Este foi o comentário final de Gianmarco De Pieri, histórico líder do Tpo e do Làbas: “Um momento formidável de diálogo em público entre o Arcebispo e nós. Devemos agora relançar a ação em rede entre as paróquias e os espaços sociais. Ambos se concentram na organização da resistência contra a injustiça. Dois mundos que, desde há muito, têm vindo a falar um com o outro convidam todos os outros mundos a falarem, a fazerem planos, a lutarem pela dignidade e o direito à felicidade dos pobres, dos explorados, dos migrantes. Nos períodos mais felizes dos movimentos sociais, católicos de base e centros sociais caminharam juntos: recomecemos a fazê-lo. Recorrendo a uma metáfora da Bíblia, o nosso povo explorado encontra-se no Egito, infeliz sob o domínio do Faraó, que agora assume a forma do capitalismo predatório. Tracemos juntos as rotas que nos conduzam para um outro lugar, livres e com uma vida plena de direitos e solidariedade”.

Um aspeto muito significativo é que o encontro entre a Igreja e Tpo-Làbas aconteceu graças aos migrantes, ou seja, graças ao facto de haver um rapaz requerente de asilo que ninguém acolhia e que foi depois acolhido pelo Tpo e pelo Làbas. Trata-se de Yusupha, de quem tínhamos contado a história no sítio da Secção para os Migrantes e Refugiados[3].

O mérito da queda deste muro e da edificação desta ponte entre a Igreja e os centros sociais deve ser assim atribuído a Yusupha. Isto mesmo foi sublinhado por Domenico (Meco) Mucignat, histórico expoente do Tpo, na abertura da sessão, assim como por muitos jornais, que deram muita atenção ao evento. Il Fatto Quotidiano, por exemplo, escreveu: “A ocasião surgiu do livro de Francisco sobre os Movimentos Populares. Mas o verdadeiro mérito cabe a Yusupha, um rapaz gambiano em busca de acolhimento. Tinha acabado a dormir nos bancos da estação de Bolonha. A Cúria não conseguia encontrar-lhe um abrigo. Foi hospedado pelos centros sociais. ‘Impressionou-nos – prossegue Mucignat – a atitude de Zuppi para com os migrantes e pobres’. […]

Acontece no Tpo de Bolonha. Como tinha acontecido em Roma, onde os “casacas brancas”, os desobedientes dos centros sociais, tinham escrito a Francisco. E tinham obtido a resposta que de outros não chegava.

Fala Zuppi: ‘O dinheiro, diz o Papa, deve servir-nos, não governar… há a quem aborreça a ética, aborreça que se perturbem os manobradores’, os senhores da economia. Atrás de Zuppi, está escrito ‘No borders’. Eram talvez necessários os migrantes para nos fazer entender que as antigas fronteiras já não existem. Até mesmo aquelas nas nossas cidades”[4].

Em resumo, confirma-se cada vez mais aquilo que foi dito pelo Papa Francisco aos migrantes e aos refugiados: “Tratados como um peso, um problema, um custo, sois ao contrário um dom. Sois o testemunho de que o nosso Deus clemente e misericordioso sabe transformar o mal e a injustiça dos quais sofreis num bem para todos. Porque cada um de vós pode ser uma ponte que une povos distantes, que torna possível o encontro entre culturas e religiões diversas, um caminho para redescobrir a nossa comum humanidade”[5].

Prossegue assim o caminho para redescobrir, defender e promover a nossa comum humanidade. Um caminho no qual o Papa Francisco e os movimentos populares, Zuppi e o Tpo e o Làbas, nos convidam a que nos unamos, aceitando o desafio que a história nos apresenta neste nosso tempo, conscientes de como são grandes e inúmeras as dificuldades, mas também que é possível caminhar juntos para a civilização do amor. De Bolonha ressoam, por conseguinte, as palavras do Papa Francisco, dirigidas mais uma vez aos movimentos populares: “Ao ver a crónica negra de cada dia, pensamos que não haja nada que se possa fazer para além de cuidar de nós mesmos e do pequeno círculo da família e dos amigos. […] Que posso fazer eu, artesão, vendedor ambulante, carregador, trabalhador irregular, se não tenho sequer direitos laborais? […] Que pode fazer aquele estudante, aquele jovem, aquele militante, aquele missionário que atravessa as favelas e os paradeiros com o coração cheio de sonhos, mas quase sem nenhuma solução para os seus problemas? Podem fazer muito. Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos três “T” […] – (trabalho, teto, terra), e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança […]. Não se acanhem! […] O futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas suas mãos que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança. Estou convosco”[6].

[1] Para o Tpo ver http://www.tpo.bo.it/chi-siamo/ e para o Làbas https://www.facebook.com/labasoccupatobologna/.

[2] II Encontro dos Movimentos Populares, Bolívia, 2015.

[3] https://migrants-refugees.va/it/blog/2018/01/19/la-dignita-si-chiama-noi/.

[4] https://www.ilfattoquotidiano.it/premium/articoli/il-vescovo-di-strada-dai-rossi-cerchiamo-cio-che-unisce/.

[5] Papa Francisco, Mensagem Vídeo por ocasião do 35º aniversário do Centro Astalli para os Refugiados, 19/04/2016.

[6] II Encontro dos Movimentos Populares, Bolívia, 2015.